Alvaro Tadeu

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O cavaleiro

A luz do amanhecer pintava a pele branca feito um banho de sol. Por trás das páginas do livro que o cavaleiro segurava em uma das mãos, escondia o desejo da possessão. Com a outra, ele apoiava a caneca, bebendo um pouco da cerveja preta entre um parágrafo e outro. Ela parece provocar-me. Deitada no tapete, à frente do cavaleiro, ela ainda estava dormindo, com parte do corpo nu à mostra; um dos seios rosados, e o outro tampado pelo cobertor grosso da pele de algum animal enorme.

Por vezes, se mexia durante o sono. Mesmo seu inconsciente parece me provocar. O vigor em si já era pleno e, a qualquer outro movimento, saberia que sua sanidade perderia a batalha para a loucura. Só a imaginação de como ela ficaria lá embaixo foi o bastante para fazê-lo levantar de supetão da mesa de carvalho e derrubar a caneca de cerveja escura no chão. O levantar do susto mostrou a criatura mais bela que já vira. Com uma expressão de dúvida no rosto, a menina fintou a bebida no chão, e depois a face marcada pelas cicatrizes de batalha de Attuck. Como esses olhos conseguem ser tão inocentes e ao mesmo tempo indecentes? Ela preferiu o sorriso a um bom dia, e se levantou, do jeito que estava para se espreguiçar, como se estivesse sozinha no quarto. Que sua preocupação nunca venha, pequena deusa, pensou, enquanto observava os belos seios, que de tão rosados pareciam emanar o desejo; e a entrada de seu ventre, da mesma cor da noite que vestia o cabelo, ondulado, sedoso, e longo até a cintura. Tudo parecia ornamentar os olhos, azuis como o céu daquela manhã.

“Madame”, disse Tuck, com um cordial cabeceio de cumprimento ao sair do quarto. Ela pareceu fingir não ouvir até o cavaleiro observar um pequeno sorriso de canto de boca. O dia estava aberto lá fora, e o sol era refletido fortemente por sua armadura branca, ornamentada por pequenas lascas de topázio que formavam uma letra A cursiva em seu peito. A borda da capa branca que pendia do ombro do cavaleiro balançava ao vento de Minyar. Da mesma forma, o vento levava a fumaça das fornalhas que assavam os pães daquela manhã, que se misturava ao cheiro doce dos temperos do principal comércio da capital do Domínio.

Vindo de uma das barracas, podia ouvir. “Um pedaço de cor-obsidiana para adocicar a manhã do cavaleiro”, “Pela caminhada dos Irmãos! Vocês da Guarda não comem? Quem sabe um pedaço de lágrima-da-noite para o cavaleiro?”. A duas barracas do velho de cabeça e barba branca que o fintava e balançava uma lágrima-da-noite da ponta da faca na direção do cavaleiro, viu outro mercador. “Ao cú de Solyr com suas doze moedas!”, falou, quase sem fôlego, enquanto empurrava dois meninos, sujos como ratos. Nem o mais doce pedaço de cor-obsidiana refresca a alma de um mercador, lembrou que alguém lhe havia dito, e riu um pouco.

No corredor após o Mercado Central de Minyar, algumas casas ornamentavam a passagem com seus jardins verdes, e cercas de metal. Algumas, eram mansões. Essas geralmente tinham um jardim gigantesco próprio, branquíssimas, com pilastras de gesso moldadas nas mais variadas formas: uma mulher nua, um par de homens que provavelmente selavam algum acordo com as mãos, uma águia apoiada na base da casa, como se protegesse a residência, um leão calmo, dormindo, com apenas os olhos focados em quem passava pela rua. Na escadaria das casas menores, algumas crianças sentavam, à espera da Guarda de Aelyr, batalhando e sorrindo, empunhando gravetos nas mãos. Que Nym continue guardando sua inocência nos pequenos. A cada passo, um pensamento diferente dominava a mente do cavaleiro. Os seios rosados, os cabelos colorados do tom da noite, a pele cor-de-leite, banhada pelo sol e aqueles olhos pelo qual qualquer homem em todo o Domínio mataria. E o sentido daquele convite.

Lembrou-se de como na noite anterior estava quase adormecendo, em frente à lareira, responsável pela primeira vigia. De repente, uma brisa lhe agraciou os cabelos castanhos e ouviu três uivos do vento vindos do vão debaixo da porta, um seguido do outro. O cavaleiro acordou, com o peso dos olhos lhe impedindo a visão nítida, e abriu a porta da taverna. Ao pisar para fora, sentiu algo em seus pés. Era um canudo de papel, enrolado e envolto por um laço verde, no qual uma cera da mesma cor selava a carta, marcada por uma palma da mão, em riste. Abriu, cerrou os olhos para ver as seguintes letras:

Ao antigo cavaleiro da Guarda de Aelyr,

Seria uma honra tê-lo sob o teto de nossos graciosos Irmãos novamente.

No pico do sol do próximo dia,

Cordialmente,

Logo abaixo, uma assinatura irreconhecível, que mais parecia um rabisco horizontal.

Sem nem sequer notar o caminho restante, percebeu que já havia chegado ao Templo dos Sacrifícios. Tão ou mais branco que sua armadura, era impossível ingressar os portões do Templo sem cerrar os olhos. O reflexo do edifício era tanto que o lago ao lado da passagem de entrada era cristalino e por isso sempre vazio nas manhãs – os peixes preferiam a parte escura atrás da construção, onde o sol apenas apontava ao pico-do-dia. O cume do Templo lembrava uma mão em riste, como que em desafio ao céu. As janelas, em vitrais dourados, pareciam ser os anéis que enfeitavam cada um dos quatro dedos. O que parecia ser o dedão dava para a parte oposta da construção.

Ao ingressar no salão principal, um servo de vestes brancas, cujo qual não conseguia distinguir entre um menino e uma menina, acenou a cabeça em um sorriso breve. “Meu senhor, o Segundo Templário lhe aguarda.”E espero que seja breve. Estou longe de cumprir meu dever. Pensou, mas preferiu repetir o gesto do garoto/garota com gentileza, se encaminhando para o corredor apontado pelo servo. Com uma ou duas viradas de cabeça para observar o garoto, sempre retribuídas por um sorriso, o cavaleiro pode ver que os olhos do servo eram mais pretos do que o normal, como se estivessem fechando sua alma, tanto para fora quanto para dentro. Seus lábios eram espessos, e o sorriso o fazia buracos nas bochechas. Se não soubesse que os servos do Templo dos Sacrifício não entrassem no início da vida adulta, aos 16 anos, o garoto passaria facilmente por um esguio e jovem menino de 12 anos, sem qualquer indício de um sequer pêlo na face.

O corredor era menos claro do que os arredores do Templo, mas as aberturas em arco davam visão para dois jardins completamente diferentes um do outro. Ao lado esquerdo, uma terra negra inóspita, com estátuas de pedra que, para o cavaleiro, pareciam ter 100 anos ou mais. Cada uma delas parecia ser de uma pessoa diferente, mas todas tinham duas coisas em comum. As roupas, mantos abertos dos lados, na altura da perna, que desciam até o pé, e as mãos abertas em riste, apontando para direções diferentes. “Sacrifícios, senhor”, disse o servo apontando para uma estátua com expressão melancólica de braço apontado para a direção da porta a qual se encaminhavam “ são todos eternizados aqui. Personificam a vontade dos Irmãos. Há, inclusive, quem diga que são seus próprios guerreiros”, disse. O cavaleiro replicou, observando o servo. “E as mãos?” Agora percebera que havia uma marca em sua bochecha esquerda. Lembrava a letra S de lado. “Receio que eu não posso te contar mais que isso, meu senhor.” Frustrado, o cavaleiro observou o outro lado. Ali, várias árvores dividiam o espaço com cinco pequenos lagos, que diferentes do pequeno lago da entrada, eram escuros. Naquele estranho bosque havia apenas a base de uma estátura de pedra, que parecia ter sido removida de seu lugar.

No final do corredor, o cavaleiro abriu a porta para ver um salão totalmente branco e uma escadaria extensa, que se afinava até uma porta dupla, a entrada para a Sala Branca. Ao abrir a passagem cravada em estranhas inscrições, o cavaleiro surpreendeu-se ao ver uma mesa de obsidiana. Seu brilho ofuscou a visão do cavaleiro por alguns segundos, até se acostumar. Logo pode ver que a mesa era circular, com uma abertura ao meio, e uma entrada na mesma direção da porta de entrada. Pelo visto, as rezas dos sacrifícios adiantam. Quatro cadeiras cercavam a mesa, mas apenas uma estava ocupada. Uma inscrição fora forjada no topo de cada uma. Na que o templário se encontrava, recostado, batendo a ponta dos dedos na mesa e observando o cavaleiro, estava o mesmo símbolo marcado na bochecha do servo.

“Fico feliz que tenha atendido ao meu convite, nobre cavaleiro. A sabedoria dos Irmãos está em você”, o velho de uma pele pálida, quase sem-vida saudou Attuck. E com certeza está em você também, e em seus outros três companheiros. Uma mesa dessas, nem a sabedoria de três gerações seria capaz de comprar. Com um sorriso quase-forçado, o cavaleiro retribuiu a cortesia. “Agradeço, Segundo. Tenho certeza de que seu convite tenha alguma razão por trás, e mais certeza ainda que essa razão não tem qualquer relação com a filosofia dos irmãos”. O templário continuava a bater seus dedos, em sequência, na mesa. Por um momento parou, e com a mão direita, fez sinal para que o cavaleiro se aproximasse. Antes de falar, deu uma risada despretenciosa e quase agradável.

“Claro, meu jovem cavaleiro” o velho deslizava um indicador sobre a mesa de vidro obsidiano. Parou o movimento com o dedo para esfregá-lo contra um polegar. “Eu poderia apostar uma montaria que, neste ponto, você já imaginaria o propósito”, e um sorriso irônico se mostrou na face do velho, que focou os olhos do cavaleiro.

Tuck já sabia o que era. E neste momento, ainda assim, a única coisa que conseguia pensar era aquele par de olhos azuis. Lembrou-se do que seu pai lhe dizia. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. Tenho que estar atento. Voltou seus olhos para a sala. Agora, por contra do vitral dourado atrás do velho, conseguia ver que estava na parte do edifício que lembrava um dedão. “Não há necessidade para tamanha  cordialidade. Você pode falar sem que seu capitão não esteja aqui para autorizar”, o sorriso agora era irônico. “De qualquer forma”. O velho sacerdote se levantou, ajeitando a veste branca, com detalhes em verde nas costuras, e começou a contornar a mesa. “Desde que escrevi o convite, tenho pensado como lhe faço uma pergunta, meu jovem.” Attuck continuou observando o velho andar a passos excessivamente módicos ao redor da mesa. “Me diga, cavaleiro Attuck, da Guarda de Aelyr, que de tão gloriosa e vitoriosa, tornou-se a própria guarda do Imperador Retardado. Ou devo dizer, da Tirana? O que lhe faz acordar todos os dias, vestir quase 20 quilos de aço de Brinn, e proteger uma megera e um retardado?”

Por um momento, os olhos de diamante das Terras Ricas  passou por sua mente, mas o cavaleiro não podia deixar sua atenção lhe trair. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. “Creio que pelo mesmo motivo que você e seus companheiros, todos aqui neste Templo, acreditam que as terras onde piso, o ar que entra nos meus pulmões, a água que me purifica, e o fogo que consome a vida saíram do rabo de dois irmãos”. Attuck virou-se para mirar os olhos do velho sacerdote. Agora de perto, pode observar que um deles era totalmente branco e provavelmente cego por uma das várias cicatrizes que lhe cobriam o rosto.

“É uma resposta válida. Inclusive, a lealdade e fé em ambos os casos é louvável.” O Segundo Sacerdote levantou as costas da mão para observar o anel que vestia em um dos dedos, dourados, como as janelas do Templo. Bafou nele, e o limpou na veste, para continuar.  “No meu, creio na sabedoria e no poder do tempo e de tudo que me envolve. No seu, a única criação é de um casal que certa vez convocou 500 homens para buscar um filhote de cachorro, e uma mulher cujo único elemento criado é uma marionete, que governa o Domínio como uma montaria adestrada.”

O cavaleiro ignorou as palavras do Segundo. Abria e fechava as mãos, que soavam por debaixo das luvas e da armadura. “Cuspa o motivo de seu convite logo, meu tempo se esgota a cada palavra que sai da sua sagrada boca.” Inconscientemente, o cavaleiro apoiou a mão na bainha da espada, o que gerou um olhar de espanto no sacerdote, que deu um pulo para trás, e começou a tremer nervosamente. Attuck apenas ignorou. Pelo visto os irmãos fornecem moedas, mas não a coragem.

“Pois bem. Eu imagino que não seja muito fácil viver sobre as asas de uma governância tão podre.” Isso fez o cavaleiro se lembrar de uma noite, quando seu turno era fora dos aposentos da princesa. A porta estava entreaberta, e a menina o provocava com sorrisos e beijos, mas ele não podia entrar. Eu devia, mas não pude. Neste mesmo momento, a Tirana gritou do início do corredor, e apenas ouviu a corrida de três outros cavaleiros em sua direção. Quando acordou, a lâmina estava a um centímetro do seu olho. E ele não veria o sacerdote limpar novamente o indicador e o polegar, naquele momento, ali, caso a princesa não implorasse para sua mãe que não fizesse tal atrocidade na noite de aniversário da junção de seus pais. “Os braços dos irmãos, por outro lado, estão sempre abertos para reconhecer novos companheiros, e compartilhar histórias, sabedoria, poder.” A última palavra quase fez o sacerdote babar. “E as mãos, sempre prontas para selar a paz e a razão.” O sacerdote nunca pareceu tão ansioso. Agora batucava os dedos na própria veste.

“É isso mesmo que eu ouvi? Você quer que eu seja um desertor?” Aquilo fez o cavaleiro rir, de raiva, cerrar os olhos no sacerdote, os punhos da espada, e os dentes. “Técnicamente, você está em exílio, a um passo disso.” O sacerdote voltava para sua cadeira, e continuou. “A única diferença é que a mão dos Irmãos é a única direção para o romance quase Talyliano entre o cavaleiro e a princesa. Pense bem, em uma das estradas você vê um homem sem o pau e sem a cabeça, com uma linda menina molhando seu sangue com lágrimas. Na outra, um filho sob a marca da sabedoria dos Irmãos, forte e inteligente, pronto para seguir a Caminhada.” Aquilo fez o cavaleiro divagar, mas não podia. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. Sossegou a mão da bainha da espada, e se aproximou da mesa, com um olhar sereno em face.

“Prefiro ter meu próprio pau na minha cabeça decepada do que fazer parte dessa ordem estúpida a louvar um par de imbecis que, de andar para cá e para lá, constuíram Aelyr.” Virou-se, e em passos largos e rápidos, o cavaleiro passou pelo servo, que ainda sorria gentilmente e deu um empurrão em ambas as portas. “Lembre-se, cavaleiro! Sem a sua cabeça e sem o seu pau, tudo pelo que você está lutando e nada seriam a mesma coisa!” Attuck virou-se para observar o sacerdote, e ninguém mais estava sentado na cadeira de vidro obsidiano.


Desceu a escadaria, passou pelo corredor e viu as mesmas estátuas, agora do lado direito. E então, um susto. Mas… Eu acabei de passar… O servo estava parado, à sua frente, com o mesmo sorriso, ambos os braços para trás. “Às vezes nossa própria mentalidade limitada nos trai, cavaleiro. A sabedoria dos Irmãos, por outro lado, é maior. É sempre a melhor direção.” Falou o servo, ainda com uma expressão amigável. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. Attuck agarrou o punho da espada de aço de Brinn, reluzente ante o sol do corredor, e foi correndo em direção ao servo. Dois, três, quatro passos da sua corrida, se desequilibrou. Foi o momento até o chão vir ao encontro de sua face para pensar naqueles seios rosados, no que seu pai certa vez havia lhe dito, na lâmina a meio centímetro da sua face aquela noite. Ouviu o barulho de metal caindo lá atrás, e viu que nada mais poderia fazer. Virou a cabeça para o lado, e viu o servo se aproximar, lentamente, com uma mão em riste, um anel dourado. É o mesmo. O servo apontou para sua face, e antes de tudo ficar escuro, a única canção que o cavaleiro pode ouvir foi “A sabedoria é vitoriosa em qualquer batalha.”

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Contador de histórias

Assim como na brincadeira da melodia está parte da beleza da música, a mesma aparece escrita em linhas nas palavras cravadas pelo bom contador de histórias. Não é dele o mérito total, mas sim o papel de minerador de algo novo, que pode inclusive mudar alguma vida, seguindo a mais otimista das visões — e não cabe a ele estipular um padrão para que essas sejam contadas. 

Nesse momento, crenças religiosas ou filosóficas, cor e raça são apenas detalhes na descrição dum personagem. É o que este viveu que conta, e nada mais. E não é assim tão simples. O contador de história é o artífice da vida no papel, e tal qual um, preza pelos mais singelos detalhes, que vão desde uma vírgula mal colocada ao término dum conto no momento certo.

E o que mais o alegra é a proximidade da definição do infinito. Uma vida humana é fisicamente incapaz de transmitr todas as experiências do mundo. Então, imagine você, quantas histórias de superação, engraçadas, e de amor existem por aí? Imagine o que aquele idoso que está à sua janela, fazendo sua caminhada da tarde, guarda. Que história de loucura ou de um primeiro amor aquela adolescente, com mais maquiagem que o normal para uma manhã, tanto grita histericamente para suas amigas? A imaginação do contador de histórias é a talha dourada para a beleza de seus contos. Faça um exercício: da próxima vez que estiver na rua, pense nas pessoas não como desconhecidos e estranhos, mas sim como protagonistas de um drama, comédia, ou uma epopeia.

Ou outro: quando ouvir uma parte interessante da vida de alguém, tente lembrar-se de cada detalhe. Fantasie, substitua algo que não fizer sentido, invente nomes e personagens fictícios, misture sua paleta de cores e crie a sua própria arte. Para uma pessoa virar um contador de histórias basta querer contá-la.

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Cores

E ali estava ela, sentada num banco amarelo.

Tal como alvo de alcateia sedenta, seu coração era atacado por uma angústia única, que, em momentos de fraqueza, se disfarçava como ponta de alegria. Você já sentiu isso, certo? Não pode ser exclusividade minha. E voltou a se lembrar do que há tempos estava evitando.

Pensava consigo mesma, vislumbrando os longos troncos de carvalho que faziam do meio-dia madrugada. “Quando irá acabar?” E logo se lembrava de anos atrás, quando o ar que respirava enchia seus pulmões, a despeito do agora, e as cores tinham, cada uma um significado. Os filmes, mensagens lindas, tristes, chocantes. As músicas, histórias que a faziam viajar a qualquer outro lugar do mundo apenas nos primeiros acordes, numerar a quantos por hora seguia o coração, ou até mesmo se imaginar um mês inteiro dormindo aguardando seu amor.

Era como se, repentinamente, a cor cinza criasse vida e tomasse conta de todos os sentimentos que, qualquer dia, demonstrara. Como a vez em que ao topo dum ônibus de dois andares, ao lado da metade de si, não precisava sequer dirigir-lhe um fonema para a mensagem ser entendida. Um olhar que clama “eu te amo” substitui qualquer jardim de rosas. Esse mesmo jardim, alguns meses depois, pareceu ser o primeiro a ser destruído. Os passeios ao parque, a quem foi levada uma vez, significou duas palavras que em qualquer outra situação não imaginaria coesistir: cansaço (físico, após percorrer longos 10km caminhando) e amor. Amor que sangra, extinto hoje em dia, que transforma qualquer outro termo em significado simples. Era tudo verde. E o céu, ah o céu. O azul tinha significado — não lembrava qual, mas tinha. Algum dia já teve. 

Pois quem imaginaria que da mesma maneira amava a chuva? Cada pingo frio era apenas uma desculpa para ficar ao seu lado. Como se prenderia aos detalhes se existisse viagem no tempo… Ah, como o faria. Não tentaria impedir todas as brigas, ou falar eu te amo mais vezes. Apenas prestar mais atenção em tudo o que estava sendo vivido, e ter a mínima noção de que a qualquer momento tudo aquilo poderia desabar. 

A partir do momento que desabou, inclusive, tudo passou a ficar pior. Ter duas, três, cinquenta vezes o peso negativo que realmente tem. Qualquer comentário de uma amiga, ou até mesmo qualquer noite em branco. Agora, até um elogio justifica aflição e pena de si mesma. Não sabia por que, mas pensava muito na palavra “grief”. A achava pomposa o suficiente para  usar em um texto qualquer dia desses. 

Mas a inspiração vai embora muito fácil. Admirava autores que conseguiam ficar anos elaborando seus próprios universos. Apenas imaginava um dia ser assim. Imaginava se o amor só existe uma vez, e se caso fosse o contrário, viveria para vê-lo novamente. Talvez nesse dia todas as cores voltariam a ter um significado.

No presente porém, sentava num banco amarelo e apenas perguntava-se quando isso iria acabar.

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Crer

E o chão caiu, fazendo com que o sentimento de angústia apenas se ampliasse, e o cobrisse por inteiro. Já ouvira falar em tal, porém nunca havia experenciado algo parecido. Era como se algumas espadas recém forjadas fossem cravadas em seu peito, e após isso, torcidas em ambos os sentidos. Acreditava verdadeiramente que o amor existia, mas naquele momento o mínimo da razão lhe lembrou que o coração não tinha olhos e também o menor respeito.

Inacreditávelmente continuou crendo. A despeito de tudo o que ouvira até ali, imaginou que talvez fosse questão de tempo a tenra felicidade. Apesar de uma vida em que os extremos seguem dois caminhos solitários, o trilho que os percorre continua sendo um só. E sabia que aquele era insaciável, intenso, muitas vezes decepcionante, mas satisfatório e essencial. E isso ultrapassava todas as outras preocupações.

Não tinha a preocupação de caber no pensamento alheio, e podia ganhar a alcunha ilusória. Menos importância para isso não conseguia estimar. Porque apesar de toda a neblina que encobre o pensamento dos desacreditados, apenas uma crença lhe fazia pensar diferente. Por vezes, recaía e não cria na bondade de outra pessoa. Em outras, acreditava e novamente se via sem esperanças. Tudo isso deixava ainda mais cristalina a esperança de que, de todos os dias de frio, em um sequer, teria o calor de outra alma. A isso nomeava amor. E nele acreditava.

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O elo de expressões

Posta-se ao gramado, e tenta o foco ao ponto mais extremo do céu, em um movimento quase violento. Em menos de um segundo, a visão enriquece a vista. E quando pensa: “É breve, e mesmo assim tão intensa”, reluta em crer. À mente, o pensamento segue longe e, em passos módicos e incógnitos agrada-lhe o cerne. O calor que já considerava congelado já fora derretido pelo ontem, aquecendo o hoje para um amanhã sereno e confortável. Milhas dali, a expressão serena de um anjo apenas sorri, questionando-se sobre o correto ao tempo em que resguarda-se do ignoto. 

Pensa se dali passará a voar, mesmo que sua alma há tempos já esteja fazendo-o.

Isso apenas com um sorriso.

 

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O gigante

A face da revolução reflete nos olhos do povo envolto pelo ciclo do infortúnio. As olheiras são de cansaço, de tanta repressão. O foco da íris, tal qual cera é sólida ao menor contato com o frio, é de ódio pelos anjos do diabo que circundam a visão torpe. As mãos têm rugas, que, em riste, tentam conter os atos de violência empunhados na nostalgia de uma época tenebrosa. Pernas cansadas pelo andar sem rumo sustentam o corpo curvado de tanto carregar as crias da preguiça. Antes sentado, agora de pé, parte do gigante emana de cada discussão, lágrima, barulho, gritos, choros, combate, e vinagre. Ele começa a caminhar. Resta saber até onde pode ir.

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