Arquivo de janeiro \30\UTC 2015

O cavaleiro

A luz do amanhecer pintava a pele branca feito um banho de sol. Por trás das páginas do livro que o cavaleiro segurava em uma das mãos, escondia o desejo da possessão. Com a outra, ele apoiava a caneca, bebendo um pouco da cerveja preta entre um parágrafo e outro. Ela parece provocar-me. Deitada no tapete, à frente do cavaleiro, ela ainda estava dormindo, com parte do corpo nu à mostra; um dos seios rosados, e o outro tampado pelo cobertor grosso da pele de algum animal enorme.

Por vezes, se mexia durante o sono. Mesmo seu inconsciente parece me provocar. O vigor em si já era pleno e, a qualquer outro movimento, saberia que sua sanidade perderia a batalha para a loucura. Só a imaginação de como ela ficaria lá embaixo foi o bastante para fazê-lo levantar de supetão da mesa de carvalho e derrubar a caneca de cerveja escura no chão. O levantar do susto mostrou a criatura mais bela que já vira. Com uma expressão de dúvida no rosto, a menina fintou a bebida no chão, e depois a face marcada pelas cicatrizes de batalha de Attuck. Como esses olhos conseguem ser tão inocentes e ao mesmo tempo indecentes? Ela preferiu o sorriso a um bom dia, e se levantou, do jeito que estava para se espreguiçar, como se estivesse sozinha no quarto. Que sua preocupação nunca venha, pequena deusa, pensou, enquanto observava os belos seios, que de tão rosados pareciam emanar o desejo; e a entrada de seu ventre, da mesma cor da noite que vestia o cabelo, ondulado, sedoso, e longo até a cintura. Tudo parecia ornamentar os olhos, azuis como o céu daquela manhã.

“Madame”, disse Tuck, com um cordial cabeceio de cumprimento ao sair do quarto. Ela pareceu fingir não ouvir até o cavaleiro observar um pequeno sorriso de canto de boca. O dia estava aberto lá fora, e o sol era refletido fortemente por sua armadura branca, ornamentada por pequenas lascas de topázio que formavam uma letra A cursiva em seu peito. A borda da capa branca que pendia do ombro do cavaleiro balançava ao vento de Minyar. Da mesma forma, o vento levava a fumaça das fornalhas que assavam os pães daquela manhã, que se misturava ao cheiro doce dos temperos do principal comércio da capital do Domínio.

Vindo de uma das barracas, podia ouvir. “Um pedaço de cor-obsidiana para adocicar a manhã do cavaleiro”, “Pela caminhada dos Irmãos! Vocês da Guarda não comem? Quem sabe um pedaço de lágrima-da-noite para o cavaleiro?”. A duas barracas do velho de cabeça e barba branca que o fintava e balançava uma lágrima-da-noite da ponta da faca na direção do cavaleiro, viu outro mercador. “Ao cú de Solyr com suas doze moedas!”, falou, quase sem fôlego, enquanto empurrava dois meninos, sujos como ratos. Nem o mais doce pedaço de cor-obsidiana refresca a alma de um mercador, lembrou que alguém lhe havia dito, e riu um pouco.

No corredor após o Mercado Central de Minyar, algumas casas ornamentavam a passagem com seus jardins verdes, e cercas de metal. Algumas, eram mansões. Essas geralmente tinham um jardim gigantesco próprio, branquíssimas, com pilastras de gesso moldadas nas mais variadas formas: uma mulher nua, um par de homens que provavelmente selavam algum acordo com as mãos, uma águia apoiada na base da casa, como se protegesse a residência, um leão calmo, dormindo, com apenas os olhos focados em quem passava pela rua. Na escadaria das casas menores, algumas crianças sentavam, à espera da Guarda de Aelyr, batalhando e sorrindo, empunhando gravetos nas mãos. Que Nym continue guardando sua inocência nos pequenos. A cada passo, um pensamento diferente dominava a mente do cavaleiro. Os seios rosados, os cabelos colorados do tom da noite, a pele cor-de-leite, banhada pelo sol e aqueles olhos pelo qual qualquer homem em todo o Domínio mataria. E o sentido daquele convite.

Lembrou-se de como na noite anterior estava quase adormecendo, em frente à lareira, responsável pela primeira vigia. De repente, uma brisa lhe agraciou os cabelos castanhos e ouviu três uivos do vento vindos do vão debaixo da porta, um seguido do outro. O cavaleiro acordou, com o peso dos olhos lhe impedindo a visão nítida, e abriu a porta da taverna. Ao pisar para fora, sentiu algo em seus pés. Era um canudo de papel, enrolado e envolto por um laço verde, no qual uma cera da mesma cor selava a carta, marcada por uma palma da mão, em riste. Abriu, cerrou os olhos para ver as seguintes letras:

Ao antigo cavaleiro da Guarda de Aelyr,

Seria uma honra tê-lo sob o teto de nossos graciosos Irmãos novamente.

No pico do sol do próximo dia,

Cordialmente,

Logo abaixo, uma assinatura irreconhecível, que mais parecia um rabisco horizontal.

Sem nem sequer notar o caminho restante, percebeu que já havia chegado ao Templo dos Sacrifícios. Tão ou mais branco que sua armadura, era impossível ingressar os portões do Templo sem cerrar os olhos. O reflexo do edifício era tanto que o lago ao lado da passagem de entrada era cristalino e por isso sempre vazio nas manhãs – os peixes preferiam a parte escura atrás da construção, onde o sol apenas apontava ao pico-do-dia. O cume do Templo lembrava uma mão em riste, como que em desafio ao céu. As janelas, em vitrais dourados, pareciam ser os anéis que enfeitavam cada um dos quatro dedos. O que parecia ser o dedão dava para a parte oposta da construção.

Ao ingressar no salão principal, um servo de vestes brancas, cujo qual não conseguia distinguir entre um menino e uma menina, acenou a cabeça em um sorriso breve. “Meu senhor, o Segundo Templário lhe aguarda.”E espero que seja breve. Estou longe de cumprir meu dever. Pensou, mas preferiu repetir o gesto do garoto/garota com gentileza, se encaminhando para o corredor apontado pelo servo. Com uma ou duas viradas de cabeça para observar o garoto, sempre retribuídas por um sorriso, o cavaleiro pode ver que os olhos do servo eram mais pretos do que o normal, como se estivessem fechando sua alma, tanto para fora quanto para dentro. Seus lábios eram espessos, e o sorriso o fazia buracos nas bochechas. Se não soubesse que os servos do Templo dos Sacrifício não entrassem no início da vida adulta, aos 16 anos, o garoto passaria facilmente por um esguio e jovem menino de 12 anos, sem qualquer indício de um sequer pêlo na face.

O corredor era menos claro do que os arredores do Templo, mas as aberturas em arco davam visão para dois jardins completamente diferentes um do outro. Ao lado esquerdo, uma terra negra inóspita, com estátuas de pedra que, para o cavaleiro, pareciam ter 100 anos ou mais. Cada uma delas parecia ser de uma pessoa diferente, mas todas tinham duas coisas em comum. As roupas, mantos abertos dos lados, na altura da perna, que desciam até o pé, e as mãos abertas em riste, apontando para direções diferentes. “Sacrifícios, senhor”, disse o servo apontando para uma estátua com expressão melancólica de braço apontado para a direção da porta a qual se encaminhavam “ são todos eternizados aqui. Personificam a vontade dos Irmãos. Há, inclusive, quem diga que são seus próprios guerreiros”, disse. O cavaleiro replicou, observando o servo. “E as mãos?” Agora percebera que havia uma marca em sua bochecha esquerda. Lembrava a letra S de lado. “Receio que eu não posso te contar mais que isso, meu senhor.” Frustrado, o cavaleiro observou o outro lado. Ali, várias árvores dividiam o espaço com cinco pequenos lagos, que diferentes do pequeno lago da entrada, eram escuros. Naquele estranho bosque havia apenas a base de uma estátura de pedra, que parecia ter sido removida de seu lugar.

No final do corredor, o cavaleiro abriu a porta para ver um salão totalmente branco e uma escadaria extensa, que se afinava até uma porta dupla, a entrada para a Sala Branca. Ao abrir a passagem cravada em estranhas inscrições, o cavaleiro surpreendeu-se ao ver uma mesa de obsidiana. Seu brilho ofuscou a visão do cavaleiro por alguns segundos, até se acostumar. Logo pode ver que a mesa era circular, com uma abertura ao meio, e uma entrada na mesma direção da porta de entrada. Pelo visto, as rezas dos sacrifícios adiantam. Quatro cadeiras cercavam a mesa, mas apenas uma estava ocupada. Uma inscrição fora forjada no topo de cada uma. Na que o templário se encontrava, recostado, batendo a ponta dos dedos na mesa e observando o cavaleiro, estava o mesmo símbolo marcado na bochecha do servo.

“Fico feliz que tenha atendido ao meu convite, nobre cavaleiro. A sabedoria dos Irmãos está em você”, o velho de uma pele pálida, quase sem-vida saudou Attuck. E com certeza está em você também, e em seus outros três companheiros. Uma mesa dessas, nem a sabedoria de três gerações seria capaz de comprar. Com um sorriso quase-forçado, o cavaleiro retribuiu a cortesia. “Agradeço, Segundo. Tenho certeza de que seu convite tenha alguma razão por trás, e mais certeza ainda que essa razão não tem qualquer relação com a filosofia dos irmãos”. O templário continuava a bater seus dedos, em sequência, na mesa. Por um momento parou, e com a mão direita, fez sinal para que o cavaleiro se aproximasse. Antes de falar, deu uma risada despretenciosa e quase agradável.

“Claro, meu jovem cavaleiro” o velho deslizava um indicador sobre a mesa de vidro obsidiano. Parou o movimento com o dedo para esfregá-lo contra um polegar. “Eu poderia apostar uma montaria que, neste ponto, você já imaginaria o propósito”, e um sorriso irônico se mostrou na face do velho, que focou os olhos do cavaleiro.

Tuck já sabia o que era. E neste momento, ainda assim, a única coisa que conseguia pensar era aquele par de olhos azuis. Lembrou-se do que seu pai lhe dizia. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. Tenho que estar atento. Voltou seus olhos para a sala. Agora, por contra do vitral dourado atrás do velho, conseguia ver que estava na parte do edifício que lembrava um dedão. “Não há necessidade para tamanha  cordialidade. Você pode falar sem que seu capitão não esteja aqui para autorizar”, o sorriso agora era irônico. “De qualquer forma”. O velho sacerdote se levantou, ajeitando a veste branca, com detalhes em verde nas costuras, e começou a contornar a mesa. “Desde que escrevi o convite, tenho pensado como lhe faço uma pergunta, meu jovem.” Attuck continuou observando o velho andar a passos excessivamente módicos ao redor da mesa. “Me diga, cavaleiro Attuck, da Guarda de Aelyr, que de tão gloriosa e vitoriosa, tornou-se a própria guarda do Imperador Retardado. Ou devo dizer, da Tirana? O que lhe faz acordar todos os dias, vestir quase 20 quilos de aço de Brinn, e proteger uma megera e um retardado?”

Por um momento, os olhos de diamante das Terras Ricas  passou por sua mente, mas o cavaleiro não podia deixar sua atenção lhe trair. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. “Creio que pelo mesmo motivo que você e seus companheiros, todos aqui neste Templo, acreditam que as terras onde piso, o ar que entra nos meus pulmões, a água que me purifica, e o fogo que consome a vida saíram do rabo de dois irmãos”. Attuck virou-se para mirar os olhos do velho sacerdote. Agora de perto, pode observar que um deles era totalmente branco e provavelmente cego por uma das várias cicatrizes que lhe cobriam o rosto.

“É uma resposta válida. Inclusive, a lealdade e fé em ambos os casos é louvável.” O Segundo Sacerdote levantou as costas da mão para observar o anel que vestia em um dos dedos, dourados, como as janelas do Templo. Bafou nele, e o limpou na veste, para continuar.  “No meu, creio na sabedoria e no poder do tempo e de tudo que me envolve. No seu, a única criação é de um casal que certa vez convocou 500 homens para buscar um filhote de cachorro, e uma mulher cujo único elemento criado é uma marionete, que governa o Domínio como uma montaria adestrada.”

O cavaleiro ignorou as palavras do Segundo. Abria e fechava as mãos, que soavam por debaixo das luvas e da armadura. “Cuspa o motivo de seu convite logo, meu tempo se esgota a cada palavra que sai da sua sagrada boca.” Inconscientemente, o cavaleiro apoiou a mão na bainha da espada, o que gerou um olhar de espanto no sacerdote, que deu um pulo para trás, e começou a tremer nervosamente. Attuck apenas ignorou. Pelo visto os irmãos fornecem moedas, mas não a coragem.

“Pois bem. Eu imagino que não seja muito fácil viver sobre as asas de uma governância tão podre.” Isso fez o cavaleiro se lembrar de uma noite, quando seu turno era fora dos aposentos da princesa. A porta estava entreaberta, e a menina o provocava com sorrisos e beijos, mas ele não podia entrar. Eu devia, mas não pude. Neste mesmo momento, a Tirana gritou do início do corredor, e apenas ouviu a corrida de três outros cavaleiros em sua direção. Quando acordou, a lâmina estava a um centímetro do seu olho. E ele não veria o sacerdote limpar novamente o indicador e o polegar, naquele momento, ali, caso a princesa não implorasse para sua mãe que não fizesse tal atrocidade na noite de aniversário da junção de seus pais. “Os braços dos irmãos, por outro lado, estão sempre abertos para reconhecer novos companheiros, e compartilhar histórias, sabedoria, poder.” A última palavra quase fez o sacerdote babar. “E as mãos, sempre prontas para selar a paz e a razão.” O sacerdote nunca pareceu tão ansioso. Agora batucava os dedos na própria veste.

“É isso mesmo que eu ouvi? Você quer que eu seja um desertor?” Aquilo fez o cavaleiro rir, de raiva, cerrar os olhos no sacerdote, os punhos da espada, e os dentes. “Técnicamente, você está em exílio, a um passo disso.” O sacerdote voltava para sua cadeira, e continuou. “A única diferença é que a mão dos Irmãos é a única direção para o romance quase Talyliano entre o cavaleiro e a princesa. Pense bem, em uma das estradas você vê um homem sem o pau e sem a cabeça, com uma linda menina molhando seu sangue com lágrimas. Na outra, um filho sob a marca da sabedoria dos Irmãos, forte e inteligente, pronto para seguir a Caminhada.” Aquilo fez o cavaleiro divagar, mas não podia. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. Sossegou a mão da bainha da espada, e se aproximou da mesa, com um olhar sereno em face.

“Prefiro ter meu próprio pau na minha cabeça decepada do que fazer parte dessa ordem estúpida a louvar um par de imbecis que, de andar para cá e para lá, constuíram Aelyr.” Virou-se, e em passos largos e rápidos, o cavaleiro passou pelo servo, que ainda sorria gentilmente e deu um empurrão em ambas as portas. “Lembre-se, cavaleiro! Sem a sua cabeça e sem o seu pau, tudo pelo que você está lutando e nada seriam a mesma coisa!” Attuck virou-se para observar o sacerdote, e ninguém mais estava sentado na cadeira de vidro obsidiano.


Desceu a escadaria, passou pelo corredor e viu as mesmas estátuas, agora do lado direito. E então, um susto. Mas… Eu acabei de passar… O servo estava parado, à sua frente, com o mesmo sorriso, ambos os braços para trás. “Às vezes nossa própria mentalidade limitada nos trai, cavaleiro. A sabedoria dos Irmãos, por outro lado, é maior. É sempre a melhor direção.” Falou o servo, ainda com uma expressão amigável. A loucura é vitoriosa em qualquer batalha. Attuck agarrou o punho da espada de aço de Brinn, reluzente ante o sol do corredor, e foi correndo em direção ao servo. Dois, três, quatro passos da sua corrida, se desequilibrou. Foi o momento até o chão vir ao encontro de sua face para pensar naqueles seios rosados, no que seu pai certa vez havia lhe dito, na lâmina a meio centímetro da sua face aquela noite. Ouviu o barulho de metal caindo lá atrás, e viu que nada mais poderia fazer. Virou a cabeça para o lado, e viu o servo se aproximar, lentamente, com uma mão em riste, um anel dourado. É o mesmo. O servo apontou para sua face, e antes de tudo ficar escuro, a única canção que o cavaleiro pode ouvir foi “A sabedoria é vitoriosa em qualquer batalha.”

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