Arquivo de fevereiro \12\UTC 2014

Cores

E ali estava ela, sentada num banco amarelo.

Tal como alvo de alcateia sedenta, seu coração era atacado por uma angústia única, que, em momentos de fraqueza, se disfarçava como ponta de alegria. Você já sentiu isso, certo? Não pode ser exclusividade minha. E voltou a se lembrar do que há tempos estava evitando.

Pensava consigo mesma, vislumbrando os longos troncos de carvalho que faziam do meio-dia madrugada. “Quando irá acabar?” E logo se lembrava de anos atrás, quando o ar que respirava enchia seus pulmões, a despeito do agora, e as cores tinham, cada uma um significado. Os filmes, mensagens lindas, tristes, chocantes. As músicas, histórias que a faziam viajar a qualquer outro lugar do mundo apenas nos primeiros acordes, numerar a quantos por hora seguia o coração, ou até mesmo se imaginar um mês inteiro dormindo aguardando seu amor.

Era como se, repentinamente, a cor cinza criasse vida e tomasse conta de todos os sentimentos que, qualquer dia, demonstrara. Como a vez em que ao topo dum ônibus de dois andares, ao lado da metade de si, não precisava sequer dirigir-lhe um fonema para a mensagem ser entendida. Um olhar que clama “eu te amo” substitui qualquer jardim de rosas. Esse mesmo jardim, alguns meses depois, pareceu ser o primeiro a ser destruído. Os passeios ao parque, a quem foi levada uma vez, significou duas palavras que em qualquer outra situação não imaginaria coesistir: cansaço (físico, após percorrer longos 10km caminhando) e amor. Amor que sangra, extinto hoje em dia, que transforma qualquer outro termo em significado simples. Era tudo verde. E o céu, ah o céu. O azul tinha significado — não lembrava qual, mas tinha. Algum dia já teve. 

Pois quem imaginaria que da mesma maneira amava a chuva? Cada pingo frio era apenas uma desculpa para ficar ao seu lado. Como se prenderia aos detalhes se existisse viagem no tempo… Ah, como o faria. Não tentaria impedir todas as brigas, ou falar eu te amo mais vezes. Apenas prestar mais atenção em tudo o que estava sendo vivido, e ter a mínima noção de que a qualquer momento tudo aquilo poderia desabar. 

A partir do momento que desabou, inclusive, tudo passou a ficar pior. Ter duas, três, cinquenta vezes o peso negativo que realmente tem. Qualquer comentário de uma amiga, ou até mesmo qualquer noite em branco. Agora, até um elogio justifica aflição e pena de si mesma. Não sabia por que, mas pensava muito na palavra “grief”. A achava pomposa o suficiente para  usar em um texto qualquer dia desses. 

Mas a inspiração vai embora muito fácil. Admirava autores que conseguiam ficar anos elaborando seus próprios universos. Apenas imaginava um dia ser assim. Imaginava se o amor só existe uma vez, e se caso fosse o contrário, viveria para vê-lo novamente. Talvez nesse dia todas as cores voltariam a ter um significado.

No presente porém, sentava num banco amarelo e apenas perguntava-se quando isso iria acabar.

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