Sem norte

Sem pedir demais, traz tudo, toda a carga, que por não flutuar, pesa. O punho em riste, e a bainha a balançar, enquanto a ponta da lâmina ferra o peito; o faz sangrar tempo. O tempo é vermelho, doce como a morte, e frio como a noite, e por todos os lados vai conhecendo o mundo afora. Acaricia o ferro de uma forma tão confusa, e cai no chão chorando. Acredita ser metáfora do amor, pois de filosofia é vago, e de amargura é deleitoso.

Ele foca os córneos. Ela chora. Ambos, em um abraço, formam o um só que são, e derramam lágrimas de alegria. Um ano se passou após terem se visto. Ela de vestido vermelho, e ele com um trapo qualquer. Lembrava bem. O portuário aéreo parecia estar coberto por uma neblina de tristeza acompanhada por minúsculas facas penetrando ambos os corações. O destino era sabido, porém, ali e agora, não faziam questão em acreditar nele. A união dos lábios foi tão rápida quanto a volta que ela deu ao ir embora. Não aguentaria mais dez segundos. Se fosse para matar sua alma durante um ano, que morresse logo. Tudo isso se passou. Os ferimentos causados pelo relógio não mais importavam. Na primeira carícia se curariam instantaneamente. Além disso, os abraços, beijos, a volúpia dos dois corpos ardendo no to que do amor, e o mais simples olhar culminaram em um lampejo de realidade. O último dia chegara. Mais um ano distante. Estariam sem norte novamente.

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