Arquivo de junho \17\UTC 2013

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O gigante

A face da revolução reflete nos olhos do povo envolto pelo ciclo do infortúnio. As olheiras são de cansaço, de tanta repressão. O foco da íris, tal qual cera é sólida ao menor contato com o frio, é de ódio pelos anjos do diabo que circundam a visão torpe. As mãos têm rugas, que, em riste, tentam conter os atos de violência empunhados na nostalgia de uma época tenebrosa. Pernas cansadas pelo andar sem rumo sustentam o corpo curvado de tanto carregar as crias da preguiça. Antes sentado, agora de pé, parte do gigante emana de cada discussão, lágrima, barulho, gritos, choros, combate, e vinagre. Ele começa a caminhar. Resta saber até onde pode ir.

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Insucesso

Ela era meio “eu não tô nem aí”
Quando fintava seu olhar tão Capitu
Fingia que ligava, e a visão cerrava para ver o futuro
Era meio embaçado, nublado, moroso,  e inseguro
Andava cabisbaixa, como quem não crê no próprio destino
A saia estilosa, a tiara de lacinho, e a blusa com decote,
Formavam seu figurino
 
Determinada entrou no palco, para apresentar seu espetáculo e não decepcionar
Três corações presos à corrente, formavam um colar
Escrevia em preto, num papel, a palavra “confusão”
Foi quando focou a confiança, num momento de desatenção
Sentava na primeira fileira, de cartola, cigarro e borrão
 
A confiança vestia cartola preta, e fumava um charuto
Ajeitava a todo tempo o seu paletó, e num sopro fez a menina mudar
Tomou um coração da corrente, 
e sorriu, como quem diz:
“Vem cá, eu te amo, vou te fazer feliz”
 
Sua postura mudou, com o vento brincou, e nele quis viajar
O teatro lotado já se esvaziava, e passou cada vez mais a pensar
Passou-se muito tempo e ainda assim, a moça era só felicidade
A todo momento só pensava em ter a confiança
Sorria o tempo inteiro, andava olhando o céu
2 anos depois de toda a alegria, conheceu a senhora mudança
 
Invejosa, tratou de mudar seu universo
Tudo que lhe fazia feliz, mudança tratou de jogar na lixeira
Agora pensava, consigo, “quanta besteira
Me maltrata no domingo,
E depois ta comigo na segunda-feira”
 
Sentou-se sem ver onde, e no próprio colo se recolheu
Pensou em vários motivos e causas para tudo isso
“Por que a confiança me traiu com a mudança?
Já não aguento mais tanta personificação.
Quero voltar pro meu quarto, e sair desta canção.”
Porém, enquanto chorava, ali naquela praça, alguém lhe reconheceu
Chegou bem perto, e com as mãos em seu ombro, lhe aqueceu
Do peito tomou-lhe a corrente, e da corrente, mais um coração
“É meu pagamento, sem qualquer relento, pra mim isso já tá bom”
 
E disse: “Às vezes meteoros te enganam, e descrê na constelação
Mas recorre ao infinito, e vê a mais valiosa lição
As constelações do universo só te querem sintonia
Como em todos os seres, o pó das estrelas é a alegria”
 
Levantou a cabeça, que ostentava os lindos lábios, e os grandes olhos de luar
Observou um senhor com trapos em roupa, indo embora, e resolveu repensar
“Já ouvi a música, agora entro na dança pra me libertar”
De pé, olhou bem os trapos de quem ia embora e conseguiu enxergar
“Perseverança”, com os pés de escalço, diferente de mudança, e de confiança, aos outros ia ajudar.

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Tempo

O tempo constrói. O tempo corrói. Quando o tempo não está ao lado dos que amam, ele os molda. O tempo age e flagela. O tempo cuida, e o tempo mata. E assim o tempo vai tornando cada pessoa menos, e cada ausência mais. Não só as pessoas de quem é predicado, mas também quem decide esquecê-lo. A fonte da luz que foca o tempo também queima o peito humano. Como quem já viveu muito tempo, ainda acha que tem pouco. A cicatriz em seu peito lhe diz o contrário. Já passou muito tempo pensando sobre o tempo que faltava, e o tempo que passava rápido demais. Contou fios dourados, e lagos verdes em tempo. Cada segundo um mar, e cada hora uma gota. O tempo confunde, e faz dois anos de brasa se esvair com uma simples mudança no tempo. Não importam os valores, as carícias, os amores e temores. O tempo não para, e não deixa parar. A noite, o dia, a tarde, o atraso, o adianto. Tudo tempo, sem tempo para explicar. Tempo de angústia, tempo de tristeza, tempo para pensar. O tempo todo pensando em, a todo tempo, com todo tempo do mundo, te amar.

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Sem norte

Sem pedir demais, traz tudo, toda a carga, que por não flutuar, pesa. O punho em riste, e a bainha a balançar, enquanto a ponta da lâmina ferra o peito; o faz sangrar tempo. O tempo é vermelho, doce como a morte, e frio como a noite, e por todos os lados vai conhecendo o mundo afora. Acaricia o ferro de uma forma tão confusa, e cai no chão chorando. Acredita ser metáfora do amor, pois de filosofia é vago, e de amargura é deleitoso.

Ele foca os córneos. Ela chora. Ambos, em um abraço, formam o um só que são, e derramam lágrimas de alegria. Um ano se passou após terem se visto. Ela de vestido vermelho, e ele com um trapo qualquer. Lembrava bem. O portuário aéreo parecia estar coberto por uma neblina de tristeza acompanhada por minúsculas facas penetrando ambos os corações. O destino era sabido, porém, ali e agora, não faziam questão em acreditar nele. A união dos lábios foi tão rápida quanto a volta que ela deu ao ir embora. Não aguentaria mais dez segundos. Se fosse para matar sua alma durante um ano, que morresse logo. Tudo isso se passou. Os ferimentos causados pelo relógio não mais importavam. Na primeira carícia se curariam instantaneamente. Além disso, os abraços, beijos, a volúpia dos dois corpos ardendo no to que do amor, e o mais simples olhar culminaram em um lampejo de realidade. O último dia chegara. Mais um ano distante. Estariam sem norte novamente.

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