Arquivo de abril \29\UTC 2011

O escopo das ações

O mestre caminhava com seu aprendiz em um lindo jardim banhado pelo canto dos pássaros e pelo amarelado das tulipas que enfeitavam o caminho. Ambos discutiam sobre o escopo das ações do homem, até que o sábio indagou:

– Sobre qual mira o homem aponta as suas ações?

– Não entendo o que o senhor quer dizer. – falou o aprendiz.

– Enrole isto sobre seus olhos após o meu aval – o sábio pegou uma faixa preta e a entregou ao aprendiz.

– O que quer que eu faça? -o aprendiz o olhava curioso.

– Primeiro olhe para aquela árvore (uma árvore com folhas extremamente rosas e vivas chamavam a atenção no jardim), você vai andar até ela. Porém o fará vendado, não lhe darei instruções e lhe darei o tempo que for necessário para chegar até ela. Pode fechar os olhos e colocar a faixa.

O aprendiz se vendou e esperou a ordem do mestre, que ficou em silêncio. Passados cinco minutos o mestre indagou “você sempre espera te darem ordens para executar suas ações?”. Então o aprendiz começou a andar. Parecia muito mais dificil do que imaginara, tropeçava em pedras médias, caía após algum passo falso, escorregava em folhas úmidas pelo orvalho. Em dez minutos de quedas e tropeços o aprendiz conseguira alcançar o casco da árvore.

– Muito bem. – falou em tom alto o sábio, que sentado sobre as mesmas folhas encharcadas pelo orvalho, focava o aprendiz com interesse notável. – Pode desvendar-se e sentar ao meu lado.

“O objetivo deste exercício foi exaltar o que disse há pouco tempo. Uma vez que a árvore foi focada por você, as ações foram importantes para atingir uma reação que o fez prosseguir até achar o casco, mediante qualquer futuro obstáculo. As ações são de fato essenciais, porém o foco lhe mostra como agir essencialmente.”

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Os adornos da alma

Muitos adornam a alma. O colar de ouro da má compreensão, enforca a via da erudição. O orgulho lapidado em formato diamântico é a talha intrínseca da humildade. A indiferença é o broche que alfineta o peito dos analfabetos da emoção. A raiva e o ódio são os brincos que martirizam a orelha dos valores próprios e auto-formulados. A audácia é o anel que aponta os erros dos próximos espelhados em si.

A opulência da alma é o carcoma mais transparente dos maus viventes.

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O preço da liberdade

Há mesmo um preço a se pagar para ser livre?
Há mesmo uma liberdade que valha o preço?
Há mesmo um preço a se pagar por ser inocente?
Ainda há compaixão?
Ainda existirão seres vivos e pensantes?
Sobreviventes andantes?

Num domínio de ideias, para merecer a morte, basta nascer com a vontade de viver.

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Thor e o desafio dos gigantes

Nota: Este conto retrata a ida de Thor à Jotunheim, terra dos gigantes. No texto original a viagem ocorre com Loki e Thialfi (servo de asgard), que também participam dos desafios (Loki do desafio da comida e Thialfi o da corrida).

Com Mjolnir empunhado à mão esquerda, Thor focava a enorme aldrava de bronze que dividia as madeiras maciças que formavam as duas portas do castelo de um dos reis de Jotunheim, Utgardloki. Já cansado de pesquisar algum ponto fraco -que a porta não dispunha- desferiu dois golpes na mesma e gritou para o nada “Quem és vós para ignorar a ira do deus dos trovões?”. Então Thor arremessou Mjolnir ante uma rachadura que havia conseguido fazer, abrindo-a ainda mais, e repetia os arremessos. Após duas jogadas um buraco finalmente foi aberto e o deus dos trovões adentrou o castelo, chegando a uma sala enorme cuja mal conseguia ver o teto sem levantar o queixo. Então, tomado por sua ira de outrora, bradou em alto tom “Eu desafio-te, ó Utgardloki, rei das terras de Jotunheim e subordinado do poder dos trovões!”.

Então ouviu uma voz de timbre forte e marcante “Para longe porei à prova as habilidades do deus Thor” seguida de uma risada. “Não recusarei o desafio, conquanto que um de teus grandes e aclamados dons sejam postos à minha vista”. Thor olhou o gigante que havia se aproximado, suas coxas dariam metade de um boi, e sua estatura dois. “Venha cá, ó deus do trovão, tenho um primeiro desafio para ti. Veste aquela mesa com meus companheiros?”. Utgardloki apontava o dedo para uma mesa farta ao fim do salão, em que estavam sentados Hugi e Logi, outros dois gigantes. “Vejamos qual o tamanho de vossa fome, e se conseguir fazê-la mostrar-se maior que a de Logi, ganharás.” Thor sentou-se à mesa, tigelas cheias de pernis foram postas em sua frente, enquanto à frente de Logi eram colocados bois inteiros. Começaram a comer, Thor estava faminto e devorava cada pedaço que havia em ambas as mãos com rapidez notável. Entretanto, Logi já havia terminado o boi e seus ossos, inclusive estava mastigando as tigelas no momento em que Thor o olhara. “Fim. Perdeste, ó poderoso e dotado dos maiores talentos deus dos trovões!” bradava com ironia.

“Vamos à pista no lado de fora” chamou Thor com um aceno da mão esquerda. A pista era longa e se extendia até o horizonte, Thor olhou para Utgardloki que disse “Uma corrida!” esperou até que ambos -Thor e o gigante- se preparassem e gritou “Vão!”. Ao piscar os olhos para após focar o fim da pista, Thor já via um rastro de poeira imundar seus olhos, mas pôs-se a correr com uma velocidade nunca alcançada antes. Mesmo assim o gigante já havia chegado, e apenas olhava Thor. Em outro piscar de olhos Thor já não via mais Hugi, e Utgardloki o fazia outro desafio.

“Já que pela voracidade da fome e pela tua rapidez não alcançarás teus oponentes, tenho algo de nível inferior a ti. Espero” deu uma leve risada e chamou a velha ama “Elli!”. Uma senhora veio andando devagar em direção a Thor. “Você lutará contra esta senhora, demonstre a força do deus dos trovões e a fúria do martelo Mjolnir!” apenas ouvia Utgardloki, e aquela voz o instigou. A ira lhe apossou a alma e os raios, levantou o martelo e bradou “TEMES A IRA DE THOR AGORA?”, em seguida desferiu três golpes ante a velha, que desviou com exímia agilidade. Com ainda mais destreza empurrou Thor e o fez inconsciente por três segundos, o que fora o bastante para obter a vitória. “Voltemos para o castelo, Thor!”.

O deus, se sentindo extremamente humilhado, voltou para o salão principal onde um gato enorme dormia e o tremor de seu ronronar fazia a sala tremer. “Este é meu gato. O próximo desafio para ti é simples, se levantares o gato por completo me dou por vencido e lhe admito a vitória!”. Thor seguiu em direção ao bicho e apoiou suas mãos embaixo da barriga do mesmo, o que não causou uma simples cócega. Após se esforçar e seus braços estarem extremamentes vermelhos, Thor apenas respirou fundo e disse “Impossível!”, desacreditado.

Utgardloki propôs o ultimo dos desafios “Se pela força, fome, agilidade e destreza o maior de todos os deuses nórdicos não conseguisses vencer meus irmãos gigantes, lhe darei uma última tentativa. Tens sede?” Thor apenas cabeceou um positivo. “Tragam o hidromel!” ordenou Utgardloki. Um chifre de tamanho colossal foi posto a frente de Thor, então Utgardloki completou “A última de suas chances é a sede, se beber todo o hidromel em um gole és vitorioso, caso contrário és apenas um maricas!” sorriu.
Thor pegou o chifre cheio de hidromel e virou em sua boca, sentia o sabor daquele líquido ir se desgastando e o fôlego sendo levado. Tentou ao máximo respirar apenas pelo nariz, mas não foi o bastante. Suspirando rapidamente e sem pausa, retirou o chifre de sua boca e disse a Utgardloki “Eu desisto, humilhaste o deus dos trovões e provaste sua nobreza e força. Tens meu respeito e o de Asgard, ó detentor das terras de Jotunheim”

Utgardloki olhou Thor com satisfação. “Oras… Estás totalmente errado. E lhe explicarei o porquê.”. Thor olhava com uma cara de extrema dúvida e fúria pela recente humilhação:

“Provaste tua força ao tentar combater Logi, representante do FOGO, que consome tudo com a voracidade da fome. Tua velocidade por desafiar Hugi, representante do PENSAMENTO, que é mais ágil do que qualquer ação de um ser humano e de um deus. Tua força e teus três golpes de Mjolnir fizeram três fendas, e a derrota para a velha Elli já era iminente, uma vez que nenhum ser consegue vencer a MORTE. E por ultimo, peço para ti que olhe aquela ilha à frente. Ela está algumas marés mais baixas, pois o hidromel que bebeste na verdade foi parte do oceano.

A verdadeira humilhação é aquela da não tentativa, e a verdadeira perda é a da coragem de agir.”

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O hoje e o amanhã

Existem histórias lamuriantes e prazerosas para serem vividas. Lamúrias passadas para servir de ensino. Há o deleite intenso e as lembranças deveras mais.
Os sons, cheiros e os vícios. Os prazeres e a luxúria, o choro e o ranger de dentes. As gargalhadas e o aperto no peito. Os olhares próximos agora distantes.

Tudo o que estamos passando hoje é a base do que seremos amanhã.

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Imagino


Imagino como se fosse real. Imagino cenas, porém as mesmas são queimadas na volta do transe. Imagino pois sei que a faísca é o motivo da explosão de pensamentos. Imagino por saber que viverei-te, e você me viverá. Imagino paz e o Amor que Devora. Imagino os conflitos e seus pontos fracos. Imagino a morte com respeito, buscando conviver com sua ideologia. Imagino o ser com desespero e a cegueira do egoísmo. Imagino os olhos que rodeiam e os sonhos que maquinam os olhares. Imagino a constância. Imagino o constante. Imagino o infinito e a pausa na eternidade. Imagino o fio de ouro e a busca pela perfeição. Imagino a lenda esperando para viver-me. Imagino ajudar e ser ajudado. Imagino sumonar a esperança e enterrar os maus devaneios. Imagino a vida.

Imagino, e assim vou vivendo.

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O Falso Sábio


-O sábio compara sonhos.
-Nas horas de felicidade, o sábio faz-se triste.
-Nos momentos de discussão, o sábio tenta impor.
-Debatendo, o sábio necessita de atenção.
-Convivendo, o sábio mal ri dos próprios erros, pois diz não errar.
-Na mais clara das ideias, o sábio a fantasia e a adorna com subjetividades.
-No mais difícil dos problemas, o sábio diz saber a solução mas sequer a tem.
-Nos momentos de silêncio, o sábio fala.
-Os falsos sábios dizem ser sábios.

Muitos crêem serem sábios, porém a verdadeira sapiência é dos que não se denominam sábios, apenas sabem viver.

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